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15 de março de 2010

um anjo na vida dos Salvatore


CAPÍTULO 1 – Fell Church

Minha vida nunca havia sido muito fácil, em nenhum destes longos séculos. Duas metades assim tão diferentes, dividindo um metro e sessenta de corpo, não poderia ser fácil. Só que era ainda mais complicado que isso – eu não pertencia a lugar nenhum. Não me sentia parte de nada.
Eu era como minha mãe, não fisicamente, acho que infelizmente – fisicamente, e apenas fisicamente – eu ainda carregava um pouco dos genes dele.
Não que isto fosse uma coisa ruim, eu até que gostava de minha aparência peculiar. Minha mãe era linda, um perfeito exemplar de sua espécie, cabelos louros e cacheados, lindos olhos azuis como o céu e uma pele branca e perfeita.
Eu não era assim tão angelical, mas carregava a essência dela, seu amor e sua compaixão. Miguel me amava. Ele havia me criado e era o único pai que eu havia tido em minha vida, mesmo assim, ele havia me marcado. Eu era uma impura, e não podia esquecer isso. Não importava o quanto eu tentasse ser como eles, meus sentimentos me traiam, sempre. Eu era impetuosa, era forte e decidida e não gostava que me dessem ordens.
Miguel me compreendia, e me amava como eu sempre fui. Sempre fui grata a ele por todo o amor que recebi, e principalmente por ter me dado a missão que eu tanto amava.
Minha fase rebelde já havia acabado algum tempo atrás, eu já estava acostumada a ser o que era e não lutava mais contra minha alma, nem contra a hierarquia. Eu havia aprendido a ser paciente – bom, “quase paciente”, mas para alguém como eu, já era alguma coisa.
Minha nova missão chegara, enfim. Houve um momento em que pensei que este garoto não decidiria, felizmente eu estava errada. Felizmente para mim, porque poderia continuar com minha não-vida mais um pouco. E felizmente para ele, porque teria uma nova chance.
Era uma tarde muito agradável na bucólica cidade de Praga. O clima estava perfeito, o que era difícil em se tratando do planeta Terra. Pequenos flocos de neve, como delicados diamantes, caíam do céu.
Eu estava sentada em uma mesinha, na Praça da Cidade Velha, e me deliciava com uma xícara de café. Suspirei lentamente, enchendo meu corpo com o ar frio. Adeus, adorada Europa! Porque tinha que ter tantos vampiros na América ultimamente? Qual o problema do bom e velho vampiro romeno? Eu preferia a Romênia, sem dúvida. A América era quente, e barulhenta, e nem um pouco sofisticada!
Acho que Miguel estava certo, quando insistia para que eu voltasse para casa, eu estava ficando reclamona. Mas eu não me sentia em casa lá, não me sentia em casa aqui também. Acho que eu não tinha casa, era isso, eu não tinha nenhum lugar para o qual quisesse voltar. Levantei-me e caminhei pelo passeio. Um homem baixinho e careca olhou-me com cara de espanto – preciso anotar esta: “quando estiver nevando, colocar mais agasalhos” – acho que ele não entendeu como eu conseguia caminhar apenas com um casaco de couro.
Caminhei até a Catedral de San Vitus. Era silencioso e vazio, ali eu poderia tomar minha verdadeira forma. Assim seria bem mais rápido e fácil, chegar à América.
A noite na Virgínia estava calma. Uma brisa suave abrandava o calor desconfortável que sentia em minha pele – como eles podiam suportar esse clima?
Caminhei pelas ruas escuras, não que eu precisasse procurá-lo, eu sabia exatamente como encontrar, o que eu queria mesmo era sentir aquele ambiente, saber o que me esperava.
Nós, eu e o garoto, estávamos conectados, tudo que ele sentia, eu sentia também. Esta era a parte estranha do meu trabalho, sentir coisas que não eram minhas. Isto poderia ser bem estranho, ás vezes.
A casa era antiga, muito bonita e confortável. Eu podia sentir que ele estava lá dentro, eu sentia a presença dele, sentia sua tristeza.
Olhei através do vidro, ele estava no quarto. Triste, fazia anotações em um caderno. Seu rosto era tão jovem, tão bonito. Eu queria abraça-lo, queria dizer que tudo ficaria bem, que eu estava lá por isso. Não podia. Não podia nem se quer, atravessar aquela janela e ficar perto dele – essa parte sempre me deixou irritada. Então, eu me ajeitei em um dos galhos de um velho carvalho, de onde era possível ver todo o seu quarto através daquela janela. E esperei que a manhã chegasse.
Stefan acordou cedo, e se preparava para sair – pelo menos ele tinha bom gosto, o que já era maravilhoso – eu detestaria ter que ficar sabe-se lá quanto tempo, ligada a algum tipo de nerd estranho, ou criatura bizarra.
Caminhei ao lado dele até a escola. Não é difícil passar despercebida, quando quase ninguém acredita que você exista. Não que eu pretendesse ser notada, exatamente por isso eu havia permanecido em minha forma natural e inumana – que, aliás, não me deixava nem um pouco à vontade, toda aquela história de pele cintilante e cachinhos ao vento, não combinavam muito com meu gênio.
Entramos em uma das salas de aula. Seus olhos eram tão pesarosos, ele carregava tanta culpa por ser quem era. Eu senti pena. Eu queria tanto ajudá-lo logo, resolver tudo isso!
Por vezes eu me sentia imprudente, talvez alguma herança permanecesse em mim. Sacudi minha cabeça bem forte, afastando o pensamento. Não! Eu não tinha nada daquela “coisa” em mim, nada além de alguns genes.
Sentei-me no peitoril da janela e observei. Era divertido.
Stefan era inteligente – eu estava começando a gostar mesmo do garoto – deixou o professor de queixo caído, claro, ele havia participado da maioria daqueles fatos, portanto não era difícil saber.
De repente, pensei em algo perturbador – eu também teria que me sentar ali e escutar aquele monte de baboseiras, daquele homenzinho infeliz. Será que Stefan não poderia pelo menos querer uma vida mais interessante? Sei lá, estudar em Harvard, por exemplo. O fato é que o garoto resolveu, depois de mais de dois séculos, que queria ter dezesseis anos novamente. E eu como sua protetora particular, teria que viver o mesmo.
Naquela noite, enfim, fizemos alguma coisa mais interessante. Ficar ali, no galho do carvalho, olhando Stefan se lamentar pela morte “daquelazinha”, estava me deprimindo. Elena, a tal garota por quem ele estava incrivelmente bobo, o chamara para ir a uma lanchonete. Tudo bem, não era nada muito especial, uma do tipo que se vê pelo interior. Mesmo assim, felicidade dele me contagiava, quanto mais ela se aproximava dele, mais seu coração acelerava, e acelerava o meu.
Embora ele estivesse feliz, eu não estava. Meu sexto sentido me avisava de algo ruim, algo quente e doce, algo que me dava calafrios.
Procurei algum sinal, ao redor de Stefan, nada. Sem dúvida não era dele que vinha. Ele era quente claro, dadas as condições, mas aquele calor, era... era... quase infernal.
Quando Stefan resolveu levar a “tal Elena” para casa, eu resolvi ficar, achei melhor me certificar do que era.
Talvez fosse o irmão do mal! Eu não o conhecia ainda, mas os pensamentos e lembranças de Stefan já o denunciavam para mim – ele era osso duro. Por fim, achei improvável. O que um ser infernal como ele faria naquele fim de mundo? Certamente não estaria ali! Nem eu, se tivesse escolha, estaria ali.
Andei de volta para a velha casa dos Salvatore, a noite estava quente e úmida – a pior combinação possível para um clima. E ainda tinha aquela sensação estranha, um arrepio subindo da ponta da coluna até o pescoço, como se alguém soprasse minha nuca com ar quente. Eu precisava de um carro – de preferência, um com ar condicionado, e dos fortes – preciso me lembrar de providenciar um logo.
Quando voltei para o velho carvalho, Stefan ainda não estava em casa, mas eu podia sentir que estava feliz, então dei um tempo a sós com a garota.
Deitei-me no galho e fiquei olhando as estrelas, naquele momento eu me senti tão longe de casa, tão só. Pensei em minha mãe, e em como sua existência terminara. Olhar para o céu, pra mim, era triste. Minha mãe estava lá, brilhando com as outras estrelas, almas proibidas de descer. Não era nada muito poético, quando se conhecia o verdadeiro significado das estrelas. Eu preferia as noites escuras, preferia ver apenas o brilho da lua. Esta sim, era poética. E me fazia lembrar de casa.
Stefan entrou eufórico. Algo com uma festa, não entendi muito bem. Ele sempre sufocava os bons pensamentos, como se quisesse se punir por estar feliz.
Acho que acabei dormindo, eu estava cansada, esse clima tirava minhas energias. Quando abri os olhos, o sol brilhava fortemente. Senti uma gota de suor descer pela minha testa – ótimo, o dia agora, estava fantástico! Se Miguel me ouvisse praguejar deste jeito, teria dito que era influência deste lugar. Se fosse por sua vontade eu estaria bem longe daqui. Provavelmente, tocando harpa.
Passei um dia nada agradável. Eu continuava a sentir aquela sensação estranha em minha espinha. Uma sensação tão nova e desagradável que me deixou de mau-humor – alguém como você não pode ficar de mau-humor – eu escutava as palavras de Miguel ecoando em meus ouvidos.
Quando caiu a noite, e o clima ficou um pouco mais frio, eu me animei, e decidi ir a tal ”festa adolescente de início das aulas”.

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